 |
| Ilya Repin: "Os barqueiros do
Volga" |
 |
| Ilya Repin, fotografia,
1890 |
http://artemazeh.blogspot.com.br/
Ilya Repin nasceu em 1844 em Tchougouiev, na
Ucrânia. Seu pai era um soldado. Iniciou seus estudos de pintura com um pintor
de ícones chamado Bunakov. Em seguida, entrou para a Academia Imperial de Belas
Artes de São Petersburgo em 1863, onde estudou até 1871. Entre 1873 e 1876,
viajou pela Itália e por Paris, graças a uma bolsa de estudos que havia ganhado
na Academia.
Se juntou a uma sociedade de pintores ambulantes, a partir
de 1878, que realizavam exposições artísticas ambulantes. Após 1882 se
estabeleceu em São Petersburgo, mas fez muitas viagens ao exterior. Conheceu a
obra do pintor holandês Rembrandt, que o inspirou muito em seus
retratos.
Sobre ele foram escritas inúmeras publicações, desde livros a
monografias e centenas de artigos. Ilya Repin é um mundo dentro da pintura
russa!
 |
| Ilya Repin: "Adeus de Puchkin ao
mar" |
A Rússia em que ele viveu era dominada
pelo regime dos czares. Quando Repin nasceu, a Rússia estava sob o domínio do
czar Nicolau I, mas em 1894 assumiu o czar Nicolau II que foi deposto pela
Revolução Socialista de 1917. A injustiça e a opressão que ele via acontecendo
com seu povo, retrato da administração dos czares, lhe incomodava muito e Repin
denunciou isso em vários de seus quadros. Movimentos revolucionários pipocavam
em toda a Rússia, lutando contra o império czarista. Repin pintou retratos de
amigos escritores como Tolstoi, L. Andreeva, Maxime Gorki e V. Garshina, assim
como dos artistas P. Strepetovoy e Mussorgsky. Também pintou o retrato do famoso
químico Dmitry Mendeleyev.
Um de seus quadros mais conhecidos é "Ivan, o
Terrível e seu filho Ivan".
Repin pintou centenas de quadros e fez
milhares de esboços e desenhos. Também escreveu um livro de memórias intitulado
"Longe perto". Nele conta, por exemplo, como fez sua pintura “Os barqueiros do
Volga". Foi em 1868. Ilya Repin era estudante na Academia de Artes e participou
de um concurso de pintura sobre a história bíblica com o tema "Jó e seus
amigos." Em um dia agradável de verão, ele e outro artista, K. Savitsky,
resolveram ir juntos fazer croquis pelo rio Neva, em um barco de passageiros.
Lá, avistaram trabalhadores maltrapilhos puxando um barco com seus corpos
amarrados a cordas. Sujos de barro, muitos deles sem camisa, bronzeados pelo
sol. Os rostos eram pesados, marcados, onde o suor escorria. Contrastavam muito
com os passageiros do barco, especialmente as perfumadas e elegantes senhoras da
sociedade. Ilya Repin disse a seu amigo: “Que imagem é esta? Pessoas tratadas
como animais!” E disse que essa visão o deixou tão impressionado que não parava
de pensar naqueles homens sujos, carregando cargas pesadas sobre a lama. Fez um
esboço do que viu, que depois pintou (figura acima).
 |
| Retrato de Maxime Gorki, por
Repin |
A imagem chocou a todos, amigos e
adversários do artista. Mas para pintá-lo, Repin levou vários anos de trabalho
duro, fez duas viagens ao Volga, em contato diário com os trabalhadores. Acabou
se tornando amigo desses heróis do seu quadro. Ele conta que trabalhou muito,
longas horas em seu ateliê, fazendo esboços.
As primeiras impressões, ao
ver aqueles homens cujo rosto expressava sofrimento sob duro esforço, fez com
que seus primeiros esboços incluissem o contraste entre eles e as senhoras
elegantes do barco no rio Neva. Mas, conforme foi amadurecendo as ideias, acabou
por pintar a cena no rio Volga, em um céu de verão, com nuvens luminosas e um
banco de areia sob sol quente. Bem no fundo, o navio, onde está o proprietário
ou administrador a bordo. No primeiro plano, os barqueiros, tensos, num esforço
supremo para puxar o barco, como pode ser visto na última figura à direita. O
amarelo da areia, aparece na água e até no azul do céu. Água, céu e areia e 11
pessoas cujo trabalho vale menos do que o de cavalos, disse ele. Repin lembrou
de um poeta, Nekrasov, que diz em um de seus poemas: “Vá para o Volga, cujo
gemido é ouvido.” O rio Volga é o grande rio russo.
 |
| Esboço para um retrato,
Repin |
Mas esse artista planeja, numa grande
síntese ideológica e criativa, valorizar os onze homens, colocando a linha do
horizonte abaixo deles, assim como o Volga e o barco, onde o dono é muito menor
que eles. Essa escolha de Repin deu a esse quadro um significado monumental,
onde denunciava a situação de miséria e injustiça que vivia o povo sob o comando
do império czarista.
Essa tela “Os barqueiros do Volga” colocou Ilya
Repin na categoria dos melhores artistas russos. E ele ainda era um estudante...
O quadro foi exposto em São Petersburgo, depois em Moscou e em seguida foi para
a Exposição Mundial em Viena, Áustria. Esta imagem tornou-se o centro das
atenções de toda a sociedade russa e recebeu elogios de diversos setores e
círculos de artistas e intelectuais.
Mas o reitor da Academia de Belas
Artes, ao contrário, considerou aquele quadro uma aberração, chamando de "estes
gorilas" às figuras dos barqueiros, acrescentando que era uma vergonha para a
Rússia e seu governo que um quadro como aquele fosse participar em exposições na
Europa.
 |
Retrato
do paisaigista russo
Alexeï
Bogolioubov, Ilya Repin
|
Mas
um dos que defenderam Ilya Repin foi Dostoievski, que observou sobre o quadro:
"É impossível não amá-los, estes inocentes.” Repin também disse que aquele
quadro era a primeira voz e o mais poderoso grito de toda a Rússia, do seu povo
oprimido, cujo grito era reconhecido em cada canto onde se falava o idioma
russo. “E é o início da minha fama por toda a Rússia, ótimo”, acrescentou. Esse
quadro se tornou um dos principais símbolos da opressão czarista sobre o
povo.
Conta-se que Ilya Repin pensava muito ao executar suas pinturas,
fazendo desenhos e esboços, incansavelmente. Cada detalhe era pensado e
desenhado, antes de ser pintado. Suas obras são resultado de longo estudo, o que
torna seus quadros, para quem se dispõe a observá-los atentamente, elegantes,
marcantes e fortes. Um de seus quadros mais conhecidos é "Ivan, o Terrível e seu
filho Ivan", além do “Os barqueiros do Volga”.
Ilya Repin conheceu o
escritor Lev Tolstoi em Moscou e desde o primeiro encontro nasceu uma amizade
que durou mais de 30 anos, até sua morte. Eles se admiravam mutuamente como
artistas e quando já não moravam na mesma cidade, trocaram uma farta
correspondência. Conversavam durante horas sobre arte. Repin fez vários retratos
do amigo, com lápis, caneta, óleo e aquarela.
 |
| Tolstoi, por
Repin |
Entre 1880 e 1883 ele pinta outro de
seus grandes quadros: "Procissão pascal na província de Kursk”, onde ele inseriu
uma diversidade de tipos russos, como os camponeses, por exemplo, mas dando a
eles um tratamento que os colocavam no nível dos personagens de magnitude
histórica. Ao lado de uma senhora com ares de arrogância carregando um ícone (no
centro do quadro), pintou policiais a cavalo, guardas, comerciantes, clérigos
robustos, além de uma multidão de pobres, incluindo um adolescente aleijado que
caminha com sua bengala em direção ao centro da pintura.
Repin era grande
observador da vida de seu tempo. Com Ilya Repin o Realismo russo entrou na fase
de maturidade e atingiu o auge.
No final do século XIX, a Rússia passava
por grandes agitações políticas e diversos grupos revolucionários se
organizavam. Ilya Repin pintou o quadro "A prisão do propagandista," entre
1870-1880. Mais uma vez é uma pintura que revela a alma engajada do artista, num
episódio dramático da prisão de um revolucionário russo, carregado de bastante
tensão, apresentado por Repin como um homem que escolheu o caminho da luta e do
sofrimento, sendo retirado de casa pela polícia, sob os olhos assustados de sua
família. Repin comungava com os ideais revolucionários e permaneceu fiel a eles
até o final de seus dias.
Após a Revolução Socialista de 1917, a região
onde ele morava ao norte de São Petersburgo, Kuokkala, foi incorporada à
Finlândia (cuja independência se deu nesse ano). Vladimir Lenin, o líder da
Revolução, convidou-o à ir morar em Moscou, mas Repin já se sentia muito velho
para conseguir fazer essa viagem longa de cerca de 700 km de distância. Ele
morreu em Kuokkala em 1930.
 |
| Ilya Repin: "A procissão
pascal da província de Kursk" |
 |
| Ilya Repin: "O levante de
outubro de 1905" |
 |
Ilya Repin: "A prisão do
propagandista"
|